O século XVII testemunhou um episódio marcante na história do Brasil: a presença holandesa no Nordeste, inserida em um contexto de disputas políticas e econômicas na Europa. A Companhia das Índias Ocidentais (WIC), com o objetivo de controlar a lucrativa produção de açúcar, invadiu o território brasileiro, estabelecendo um domínio que durou mais de duas décadas. Este artigo convida você a embarcar em uma viagem no tempo para explorar os vestígios desse período fascinante, descobrindo as marcas deixadas pela presença holandesa na arquitetura, na cultura e na história do Nordeste brasileiro, com ênfase em Pernambuco e regiões próximas, palco principal desses acontecimentos. Durante esse período conturbado, a Companhia de Jesus desempenhou um papel crucial na resistência ao domínio holandês, influenciando diretamente os rumos da história do Brasil Colonial.
O Contexto histórico das Invasões Holandesas
No século XVII, a Europa vivia um período de intensas transformações políticas e econômicas. A Holanda, após se libertar do domínio espanhol, emergiu como uma potência marítima e comercial, buscando expandir seus domínios e controlar rotas comerciais lucrativas. Nesse cenário, o Brasil, então colônia portuguesa sob domínio espanhol devido à União Ibérica (1580-1640), tornou-se alvo do interesse holandês. A União Ibérica uniu as coroas de Portugal e Espanha sob o comando de um único rei, o que fez com que as colônias portuguesas, incluindo o Brasil, se tornassem alvos da Holanda, que estava em guerra com a Espanha. A ambição holandesa pela produção açucareira em Pernambuco não encontrou um território vazio. A Companhia de Jesus, com décadas de atuação na região, já exercia forte influência social e religiosa, preparando o terreno para a resistência que se seguiria.
A Companhia das Índias Ocidentais (WIC), criada em 1621, foi a responsável por organizar e financiar as invasões holandesas no Brasil. O principal objetivo da WIC era controlar a produção de açúcar, o principal produto de exportação da colônia portuguesa, que gerava grandes lucros para a metrópole.
Os holandeses realizaram duas grandes invasões no Brasil: a primeira na Bahia, em 1624, que durou apenas um ano, sendo retomada pelas forças luso-espanholas. A segunda, e mais duradoura, teve início em Pernambuco, em 1630. A capitania de Pernambuco era, na época, a mais rica e produtiva da colônia, concentrando a maior parte da produção de açúcar. A conquista de Pernambuco representava, portanto, um objetivo estratégico para a WIC.
A Companhia de Jesus e a resistência ao Brasil Holandês
A Companhia de Jesus, ordem religiosa católica fundada por Inácio de Loyola, com forte atuação na educação e na catequização, já estava presente no Brasil desde 1549, com a chegada do primeiro governador-geral, Tomé de Sousa. Os jesuítas estabeleceram missões em diversas partes da colônia, buscando converter os indígenas ao cristianismo e educar os colonos. Sua influência na cultura e na educação da colônia foi significativa, estabelecendo colégios e missões que abrangiam desde o ensino de primeiras letras até estudos mais avançados.
Com a chegada dos holandeses, a relação dos jesuítas com os novos dominadores foi tensa. A diferença de crenças religiosas, com os holandeses sendo predominantemente calvinistas, gerou conflitos e desconfianças. Os jesuítas, fiéis à fé católica e à Coroa Portuguesa, se opuseram ao domínio holandês, incentivando a resistência entre os colonos e mobilizando a população contra a presença estrangeira.
Durante a Insurreição Pernambucana (1645-1654), movimento que culminou na expulsão dos holandeses, os jesuítas desempenharam um papel ainda mais ativo. Através de seus escritos, sermões e atuação direta junto à população, eles fortaleceram o sentimento de pertencimento à Coroa Portuguesa e incitaram a luta pela expulsão dos invasores. Muitos jesuítas participaram diretamente dos combates, oferecendo apoio logístico, moral e até mesmo liderando tropas. Nomes como o Padre Antônio Vieira se destacaram na defesa do território.
Após a expulsão dos holandeses e a retomada do controle português sobre Pernambuco, os jesuítas puderam retomar suas atividades na região, continuando seu trabalho de catequização e educação, consolidando ainda mais sua presença no Brasil Colonial.
Vestígios da presença Holandesa no Nordeste e a cidade Maurícia
Apesar do período relativamente curto de domínio holandês, marcado pelo governo de Maurício de Nassau (1637-1644), alguns vestígios materiais e imateriais ainda podem ser encontrados no Nordeste, testemunhando essa importante parte da história do Brasil:
A cidade Maurícia e o legado urbanístico: Durante seu governo, Maurício de Nassau implementou importantes melhorias urbanísticas no Recife, transformando-a na cidade Maurícia. Foram construídas pontes, canais, ruas, edifícios públicos e residenciais, além de jardins e hortos, modernizando a região. No entanto, essas mudanças, embora tenham trazido desenvolvimento, também contribuíram para o aumento da tensão entre os colonos e os holandeses, fortalecendo a resistência, na qual a Companhia de Jesus teve um papel fundamental.
Arquitetura: O Forte Orange, construído na ilha de Itamaracá, em Pernambuco, é um exemplo da arquitetura militar holandesa que ainda se encontra preservado. Em Olinda e Recife, algumas construções antigas também apresentam características da arquitetura holandesa, embora muitas tenham sido modificadas ao longo do tempo.
Cartografia e iconografia: Os mapas e pinturas produzidos durante o período holandês, especialmente as obras de Frans Post, são fontes históricas valiosas que retratam a paisagem, a fauna, a flora e a vida no Brasil da época. Essas obras oferecem um rico panorama visual do Brasil Holandês.
Influências culturais: Embora as influências holandesas na cultura nordestina sejam menos evidentes do que em outras áreas, alguns estudiosos apontam possíveis influências na culinária, no vocabulário e em outras manifestações culturais.
Vestígios arqueológicos: As pesquisas arqueológicas têm revelado importantes vestígios do período holandês, como objetos, cerâmicas e estruturas enterradas, que ajudam a reconstruir a história desse período.
O Fim do Brasil Holandês e o legado
O domínio holandês em Pernambuco chegou ao fim com a Insurreição Pernambucana (1645-1654), um movimento de resistência liderado por colonos portugueses, indígenas e africanos que lutaram pela expulsão dos holandeses. A Companhia de Jesus teve um papel crucial nesse movimento, mobilizando a população e fortalecendo a luta contra o domínio estrangeiro.
Em 1661, foi assinado o Tratado de Haia, que selou o fim do domínio holandês no Brasil e reconheceu a soberania portuguesa sobre o território.
A presença holandesa deixou um legado importante no Nordeste, influenciando a urbanização do Recife, o desenvolvimento das artes e ciências, e deixando vestígios que ainda hoje podem ser apreciados. No entanto, a resistência, com o papel fundamental da Companhia de Jesus, foi determinante para o fim desse período e para a manutenção da identidade portuguesa no Brasil.
Conclusão
O Brasil Holandês configura um capítulo complexo e multifacetado da história do Brasil, marcado por interesses econômicos, pelo conflito de interesses entre potências europeias e, crucialmente, pela resistência tenaz de diversos grupos sociais, com destaque para a atuação da Companhia de Jesus na defesa a Igreja católica e à Coroa Portuguesa. A presença holandesa no Nordeste, embora relativamente breve, deixou marcas indeléveis na paisagem, na cultura e na memória da região. Mais do que vestígios arquitetônicos e iconográficos, o período evoca um embate de forças que moldou a identidade brasileira. A Companhia de Jesus, com sua atuação em várias frentes, que abarcou desde o campo religioso e educacional até o engajamento direto na resistência armada, demonstrou a força da fé e da organização na defesa do território e da cultura. A Insurreição Pernambucana, fruto da união de diferentes grupos sociais, incluindo colonos portugueses, indígenas e africanos escravizados, impulsionados pela liderança espiritual e intelectual dos jesuítas, representou um marco crucial na expulsão dos holandeses e na reafirmação do domínio português. Este episódio não apenas consolidou a presença portuguesa no Nordeste, mas também fortaleceu o sentimento de pertencimento e a construção de uma identidade brasileira em formação. O Mundonline Brasil convida você a revisitar esse período, a explorar os vestígios desse passado conturbado e a refletir sobre como a resistência e a fé, personificadas na atuação da Companhia de Jesus, contribuíram para a construção do Brasil que conhecemos hoje.